Segredos de um apartamento

Belíssimo debute de A.V. Rockwell em uma obra que revela a conturbada relação de uma mãe com seu filho ao longo dos anos. É um cinema poderoso e que traz fortes inspirações em Barry Jenkins de Moonlight. “Mil e Um” me pegou desde o primeiro segundo e simplesmente não consegui desgrudar os olhos da tela até seu final esmagador. Enquanto assistia, me peguei questionando sobre o porquê de uma obra como essa não estar sendo celebrada. Não estar sendo, nem ao menos, indicada às premiações recentes, principalmente porque Teyana Taylor entrega, de longe, uma das melhores atuações do ano e Hollywood parece fingir que não vê.

A câmera não desgruda de sua protagonista e nesta sua batalha diária que é sobreviver como uma mulher preta, pobre e que acabou de sair da prisão. Inez (Taylor) se move na urgência de se reerguer e sua primeira ação é ir atrás de seu filho que precisou abandonar anos atrás. Ela, então, tem a ousada decisão de sequestrá-lo de um lar adotivo. Existe uma relação muito potente ali, que envolve rejeição e mágoa, mas também a compreensão de que um só tem o outro no mundo. Eles se conectam neste segredo que os separam do resto, dentro de um apartamento, enquanto as ruas lá fora sofrem imensas transformações.

É muito inteligente como a direção desenha essa dolorosa jornada ao decorrer de vários anos. Enquanto a câmera captura os objetos e todos aqueles itens que ilustram tão bem determinada época, a fotografia também vai se alterando em cada fase, imprimindo nas imagens esse senso de transformação, de estarmos presenciando um novo tempo. O filme ainda consegue, de maneira sutil, mostrar essas mudanças drásticas que ocorrem nas paisagens urbanas e todo o processo de gentrificação de Nova York.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no último Festival de Sundance, “Mil e Um” traz uma história de redenção que nunca procura o caminho mais fácil. A grandeza do roteiro de A.V. Rockwell está na coragem de construir uma protagonista falha e humana. E devido a essas decisões questionáveis que ela tem, nos encontramos com o coração apertado, angustiados pela pequena possibilidade de toda sua vida desmoronar. Os diálogos entre os personagens são fascinantes e emocionam, ainda mais quando atores tão incríveis entram em cena. Teyana Taylor tem uma força descomunal e nos atinge com toda sua potência e nessa sua habilidade de revelar, com tamanha honestidade, as fragilidades e garra de sua personagem.

“Pessoas machucadas não sabem como se amar”. Há uma certa brutalidade na forma como a protagonista se relaciona com as pessoas e na forma com que resolve seus problemas. Ao fim de “Mil e Um” vem à tona algumas questões dolorosas e compreendemos esse muro que ela construiu para si. Enquanto o mundo lá fora está mudando, sua vida vai se tornando cada vez mais incerta. Ela e seu filho buscam por algo sólido, por um lar, mesmo quando tudo parece estar contra eles. O final é de uma sensibilidade e força que me devastou e me deixou sem ar por alguns instantes. É cru e avassalador ao falar sobre tempo, maternidade e abandono.

NOTA: 9

País de origem: EUA
Título original: A Thousand and One
Ano: 2023
Duração: 117 minutos
Diretor: A.V. Rockwell
Roteiro: A.V. Rockwell
Elenco: Teyana Taylor, Josiah Cross, William Catlett

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